terça-feira, 1 de julho de 2014

E a marca da calcinha é: Hope. É muita humilhação.
Eu acordei um dia e meus cabelos estavam embranquecendo e eu tava sozinha. Eu acordei e não tinha mais vinte anos. Nem trinta. Eu tentei me achar feia e velha, mas me achei linda. Uma moça me chamou de senhora, um moço me chamou de moça. Eu agradeci por não me chamar de nada. Eu me disse, bem vinda

segunda-feira, 30 de junho de 2014


25 de dezembro de 2013
O filho vem exigir a presença da mãe. A mãe implora para dormir mais um pouco. O filho nega. A mãe sugere ao filho chamar o avô. O filho diz que tem vergonha. A mãe insiste que o avô é puro amor. O filho nega e quer a mãe. A mãe, sonada, faz uma chantagem:
- Só desço se me trouxeres uma caixinha branca daquelas que estão na geladeira.
O filho sai do quarto escuro e gelado. A mãe volta a dormir. O filho retorna, larga a caixa aberta por sobre o corpo da mãe e diz:
- Te espero lá embaixo.
A mãe vai tateando, meio dormindo, a caixa. Saem quindins, camafeus, olhos de sogra, trouxas de nozes, glaceados diversos. A surpresa do que chegará à boca no escuro parece tornar os sabores mais intensos. Entre sonhos com Joey Ramone (leiam o livro "Eu dormi com J. R. ,escrito por seu irmão e Legs McNeil), ela vai ingerindo o açúcar mais bem elaborado do mundo sem consciência. É só quando a mão percorre a caixa plena de papéis e vazia de gulodices que o estrago é percebido. Ela acende a luz. Se olha. Corre para o espelho. Se olha. Em algum momento algo acontecerá, bolhas, bolas, erupções e, pior de tudo, morte por overdose de ovos moles e açúcar. Adeus filhos, adeus mundo. Mamãe morreu feliz.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

bate em mim.
ele bateu.
mas ele bateu pouco.
e ela se sentiu diminuida
por não ter
apanhado
comme
il
faut.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Ele disse:
Tu me ama?
Eu disse:
Acho.
Ele disse:
Acha?
Eu disse:
Achava.
Ele disse:
Quando?
Eu disse:
Há pouco.
Ele disse:
E agora?
Eu disse:
E agora o que?
Ele disse:
Me ama?
Eu disse:
Quem?

sexta-feira, 23 de maio de 2014


- Quer que eu arranque teus cabelos brancos?
- De jeito nenhum. E Pã, não são brancos. São prata.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Hoje uma mulher me pediu fogo na rua. Eu dei. Ela me devolveu e eu disse:
- Obrigada.
Daí me dei conta e disse:
- Opa, desculpa.
Ela disse:
- De nada. Opa errei.
Eu disse:
- Desculpa quem?
Ela disse:
- Eu digo, com licença.
Eu disse:
- Como?
Ela disse:
-Eu digo obrigada.
Eu disse:
- Diga, por favor.
Ela disse:
- Por favor.
Eu disse:
- Obrigada.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

é difícil aceitar que se deva ser uma coisa ou outra. no máximo duas. talvez três. difícil, aqui, quer dizer impossível. quer dizer: não. não quero ser nenhuma coisa. estive esperando, quarenta e um anos, e nada. quero poder ser qualquer coisa a qualquer hora e nada, coisa nenhuma, sempre. assim é.